Quebrando o protocolo para salvar vidas

Quebrando o protocolo para salvar vidas

Na noite de 12 de novembro de 2013, os Bombeiros de São Paulo, estavam de prontidão como sempre. No posto da Casa Verde, um dos postos de bombeiros mais equipados e preparados da capital paulista, estava de serviço a prontidão amarela, do Sargento Bacelar. O Sargento, é o chefe de socorro do Auto Bomba Tático, viatura preparada para atuar em maior parte da cidade e com maior número de ocupantes, 6 bombeiros.

Por volta das 21h30, um chamado para o 193, informava um incêndio em andamento em estabelecimento comercial, localizado na Avenida Angelina, bairro da Vila Guilherme, zona norte de São Paulo. O solicitante, informava que havia bastante fogo e possíveis vítimas. Então o COBOM (Centro de Operações do Corpo de Bombeiros) despachou diversas viaturas para o local, uma delas era o AB Tático, chefiada pelo Sargento Bacelar.

EL: Em quanto tempo vocês chegaram no local?

Bacelar: Tínhamos acabado de chegar de outra ocorrência e a noite entrou na rede essa ocorrência na Vila Maria, que era fogo em loja de móveis, incêndio. Já estavam no local o Auto Bomba da Vila Maria e o Área do Tucuruvi, que é o 2A, e o Tático chegou uns 10 minutos após.

EL: Qual foi sua primeira impressão do local? Qual era o plano?

Bacelar: Quando chegamos tinha bastante fogo e o tenente pediu pra montar uma linha, a linha de ataque, pra combater as chamas. O Tático corre com 6 homens, então os 4 homens da minha viatura foram fazer o combate, o motorista que é o Cabo Comba, estava operando a bomba, e como eu estava ali, fiquei de olho, tanto na equipe do Tático que estava trabalhando no incêndio, como a equipe do Área que estava cortando uma porta de aço que dava acesso ao subsolo.

EL: Como surgiu a confirmação que haviam vítimas no incêndio?

Bacelar: Depois de alguns minutos fomos pegando os informes com o pessoal que estava ao redor, de repente apareceu um boliviano, estava meio chamuscado, o cabelo dele estava meio arrepiado, e eu perguntei de onde ele tinha saído, tinha um corredor lateral, a gente pensou que era da casa do lado, ele falou não, eu saí dali de dentro, e ele estava falando meio castelhano. “Não, eu saí lá de dentro, minha família esta lá dentro”. Como tinha os informes que tinha cachorro lá dentro, a gente falou, mas a sua família são seus cachorros ? e ele falou, não, está lá minha mulher e minha filha, eu falei, sua mulher e sua filha ? e ele, é, minha mulher e minha filha tem 1 ano, aí eu falei , onde elas estão ? e ele falou, o senhor desce a rampa, vai entrar no galpão, vai ate o fundo, aí o senhor vai virar a direita, vai ter outra escada e você vai descer. Foi aí que a gente se deu conta, que eu perguntei pra ele, além desse subsolo tem mais um ? e ele falou, tem mais um.

EL: E então você decidiu entrar?

Bacelar: Coloquei meu EPR, avisei meu motorista, falei, estou entrando, desci a rampa, estava o pessoal do Área da primeira seção, como o Cabo Vergari, o ar dele tinha acabado, ele falou, acabou o ar do meu EPR, vou trocar. Eu chamei o outro policial que estava do lado, que era o Marcondes, falei vamos entrar, que se ele saiu daí de dentro, tem alguma escada, ele falou, não, a gente já fez a busca aqui, não achamos escada, eu falei, vou entrar. Entramos, ai a gente bateu o local novamente, ai eu perguntei pro Marcondes, ele falou, já batemos aqui, aí de repente eu pisei numa depressão, falei, acho que pisei num degrau, eu pisei mais um pouquinho, falei, achei uma escada.

EL: Qual era a situação dentro incêndio?

Bacelar: Com a lanterna que eu tinha ali, não enxergava meio metro, muita fumaça, aí descemos a escada, deviam ser uns 20, 25 degraus, saímos no segundo subsolo, a gente se separou, já com medo de acabar o ar, e eu acabei localizando elas dentro de um banheiro, estavam com o chuveiro ligado, embaixo da água. Aí eu falei, Marcondes, sobe com a mulher, eu vou subir com a criança, aí porque sair com a mulher, se o boliviano saiu daqui de dentro, ele sabe sair de olho fechado, a gente já teve dificuldade pra achar o subsolo, falei, põe ela na frente, você vai subir com ela, eu vou subir atrás de você, aí foi o que aconteceu.

EL: Como foi a sequencia do resgate?

Bacelar: Eu peguei a criança, coloquei perto da minha máscara, puxei a minha máscara, e ela trabalha com negativo ou positivo, o que acontece, a minha máscara, ela destrava a traqueia dela quando eu inspiro, então ela solta o ar, mas quando eu tiro ela do rosto, ela vai pra positivo direto, começa a jogar todo o ar fora. Aí eu puxei um pouco a máscara pra poder ventilar a criança, começamos a subir a escada, acabei de subir a escada, o que acontece, nós demos uma volta gigante pra achar a escada, quando ela saiu, ela cortou um atalho, que ela começou a respirar fumaça, ele foi atrás, viraram a esquerda, não vi mais pra onde eles foram, e eu com a criança nos braços, aí eu tinha gravado o caminho, falei, vim pela direita, voltei pra direita, um armário tinha fechado a saída, não achava, com a criança nos braços, não conseguia achar a saída, regressei, falei, vou voltar pro subsolo, lá ainda da pra respirar melhor, tentei achar a volta pro subsolo, não achei, aí eu voltei mais ou menos na ponta da escada, que eu achava que era, agachei no chão, a criança tinha parado de se mexer, ai eu arranquei o capacete, tirei a máscara, coloquei na criança e comecei a chamar o bombeiro. A hora que ele chegar na rua, ele vai perceber que eu não estou com ele, ele vai voltar, aí foi o um minuto mais longo né, ai ele acabou retornando, eu vi o facho da lanterna dele quando ele estava a 1 metro, 1,5 metro de mim, ele pegou meu capacete que estava no chão, mostrou o caminho que eles tinha feito pra sair, aí quando a gente fez essa curva, já tinham uns 3, 4 bombeiros com lanterna no caminho, aí eu achei o caminho e saí de dentro do incêndio.

EL: Como você tomou a decisão de quebrar o protocolo e colocar a máscara na criança?

Bacelar: Essa ocorrência foi grave porque você nunca tira seu equipamento pra passar pra vitima, mas naquele caso é complicado, você pega a criança do colo da mãe com vida, e a situação, como é que eu entrego essa criança lá fora, então no momento foi a reação que teve, alimentar a criança com ar, e o bombeiro vindo, engoli um pouquinho de fumaça. A gente já passou vários apuros, mas com as vidas em mãos, esse foi o mais difícil.

EL: Como você se sentiu depois de ter salvado essa família?

Bacelar: É legal cara, é o dia a dia do bombeiro, o que acontece, o treinamento, você tem que confiar no treinamento, confiar na equipe, você saber que sua equipe vai voltar, então quando eu saí eu estava tranquilo, mas passa mil coisas na sua cabeça.

As três vítimas sobreviveram, a criança de 1 ano, seu pai e sua mãe. Hoje o Sargento Bacelar continua comandando a equipe do Tático, da prontidão amarela do PB Casa Verde.

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